especial
05/10/2026

Quem cuida de quem?

Entre afeto, cuidado e pertencimento, animais ocupam um espaço cada vez mais íntimo nas famílias. Eles dividem a casa, atravessam fases da vida e deixam marcas quando partem. Reconhecer a profundidade desse vínculo passa por respeitar aquilo que os torna

AUTORA

Carol Bonamigo

Amora poderia estar em qualquer outro lugar da casa, mas preferiu participar da entrevista. Aos oito anos, a golden retriever conhece bem aquele consultório em Chapecó. Duas vezes por semana, chega pela manhã e circula livremente pelos ambientes, aproximando-se de quem quiser. Naquele dia, enquanto conversávamos sobre o lugar que os animais passaram a ocupar em nossas vidas, ela entrou na sala, acomodou-se ao nosso lado e ficou por ali. Em determinado momento, levantou-se e saiu. Ninguém a chamou de volta. A liberdade faz parte da proposta.

Amora é uma das coterapeutas da neuropsicóloga e psicopedagoga Francine Cristine Garghetti, que utiliza a terapia assistida por animais em seu trabalho com crianças e adolescentes. Ali, os cães e gatos não são condicionados por recompensas a permanecer junto aos pacientes. Podem se aproximar, ficar, dormir em outro cômodo ou simplesmente ir embora. É uma relação em que o animal também tem escolha.

Não é preciso entrar em um consultório para perceber o espaço que os animais passaram a ocupar em nossas vidas. Eles estão dentro das casas e apartamentos, aparecem nas fotografias de família, interferem na escolha de uma viagem, reorganizam horários e despesas e fazem parte de decisões que antes diziam respeito apenas aos humanos. No Brasil, cerca de 70% dos lares têm pelo menos um animal de estimação, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abempet). São milhões de cães, gatos, aves, peixes e répteis dividindo conosco algo muito maior do que um endereço.

Chamamos de família multiespécie quando esse convívio ultrapassa a posse e o animal é reconhecido como integrante daquele núcleo familiar. A expressão pode ser relativamente nova. O sentimento, nem tanto.

Para quem já organizou as férias em função de quem ficaria com o cachorro, levantou mais cedo para dar um medicamento, foi deitar e descobriu que o gato tinha escolhido seu lado da cama ou continuou procurando, por hábito, um animal que já não estava mais ali, pouca explicação é necessária. Mas o que, afinal, significa fazer parte de uma família?



O cuidado que vem deles

Francine conhece essa relação por dois caminhos. Profissionalmente, inclui cães em atendimentos clínicos há cerca de uma década. A experiência, porém, começou muito antes, em um trabalho com cinoterapia na Apae. Em 2024, também criou na Unoesc Chapecó, onde leciona no curso de Psicologia, o projeto Patas Terapeutas, que realiza atividades assistidas por animais em diferentes contextos. No consultório, Amora e Laila dividem com ela o papel de coterapeutas, enquanto dois gatos que vivem no espaço também podem participar das sessões.

A presença deles, explica Francine, pode favorecer vínculo, acolhimento e comunicação, especialmente com crianças. “Tem criança que não consegue simplesmente sentar e conversar, mas consegue deitar no chão com o cachorro e falar com ele, ou pegar o gato no colo e começar a se comunicar. Às vezes, o animal nem precisa fazer nada, basta estar perto. Ele funciona como mediador, como coterapeuta, oferecendo um tipo de suporte que nenhum brinquedo ou estratégia elaborada consegue reproduzir da mesma maneira”.

O brincar já é uma das principais vias de comunicação no atendimento infantil. Um cachorro deitado no chão ou um gato disponível para um carinho acrescenta àquele espaço algo que não pode ser programado inteiramente pelo terapeuta. A interação acontece no encontro entre os dois.

Por isso, a vontade do animal também importa. Francine conta que, no início, utilizava petiscos como reforço para algumas interações. Hoje não faz mais isso. “Eles ficam livres. Não recebem uma recompensa para participar e não são forçados a estar aqui. Nós proporcionamos o que eles precisam, mas respeitamos se querem se aproximar ou não. Acho que existe um cuidado mútuo: nós cuidamos deles, mas eles também cuidam de nós”.

O cuidado mútuo ajuda a explicar por que esses vínculos podem alcançar tamanha profundidade. O animal depende do humano para alimentação, saúde, segurança e bem-estar. Em troca, oferece uma presença que não obedece exatamente às mesmas regras das relações humanas.

Francine também conhece isso fora do consultório. Uma de suas gatas está prestes a completar 17 anos. Quando ela chegou, Francine era solteira. Depois vieram o casamento, a primeira filha, a segunda, faculdade, especialização, doutorado. A gata permaneceu ali, atravessando todas essas versões da sua vida. “Ela acompanhou toda a minha história adulta. Cada vez que penso sobre isso, eu digo ‘Meu Deus, como vai ser não tê-la mais aqui?’ Ela vai fazer muita falta”, pondera.


Um lugar que é seu

Há 20 anos, durante a gestação da filha mais nova, a corretora de imóveis Léia Borsoi precisou permanecer 34 semanas em repouso. Flor, sua cachorrinha, tornou-se uma companheira naquele período. Depois do nascimento de Antonella, continuou por perto, até falecer, aos oito anos.

“Quando a Flor morreu, a gente perdeu parte da família. Depois, quando meu marido chegou com a Angel, eu não queria gostar dela. Eu sabia o quanto doía perder e tinha aquela sensação de que estaria substituindo a Flor. Agora, eu entendo que não. A Angel não substituiu ninguém. Ela ocupou o espaço dela”, conta.

Hoje, Angel tem 14 anos e divide o apartamento com Akhenaton, de 10, e Ayla, de oito. As filhas de Léia têm 25 e 20 anos e a mais nova nunca viveu em uma casa sem animais. A família agora convive também com aquilo que vem quando os anos passam: três cães envelhecendo, cada um no seu próprio ritmo e com necessidades diferentes.


A convivência de tantos anos também ensinou Léia a reconhecer as diferenças entre eles. Angel não gosta muito de colo, mas quer estar perto. Akhenaton é mais reservado e procura carinho quando quer. Ayla, ao contrário, prefere permanecer grudada. Aos poucos, cada um estabeleceu sua maneira de ocupar a casa e de se relacionar com quem vive nela. “Às vezes eu brinco que a casa é deles e eles permitem que a gente more nela”, diverte-se.

A rotina da casa foi se adaptando a eles. Há medicamentos, alimentação controlada e passeio diário. A volta na quadra é feita devagar, respeitando o tempo de cada um. Pertencer não significa substituir alguém, nem ocupar um lugar humano. Às vezes, pode ser simplesmente ter um lugar que é seu.


Amar é deixá-los ser animais

A médica veterinária integrativa Luana Moretto percebe uma contradição surgindo dentro de uma transformação que considera positiva. Ao mesmo tempo em que os animais ganharam espaço dentro das casas, os tutores passaram a procurar mais cuidados preventivos, especialidades veterinárias e recursos capazes de ampliar sua qualidade de vida. Mas, na tentativa de oferecer o que consideramos melhor, também podemos esquecer de perguntar o que é melhor para eles.

“O problema não é ter um cão ou um gato dentro de casa. É humanizar esse animal a ponto de privá-lo das necessidades básicas e fisiológicas da espécie. Às vezes, pensando no que julgamos ser o melhor para ele, acabamos impedindo que expresse comportamentos naturais”, afirma.

Luana parte dos princípios de liberdade utilizados no bem-estar animal: livre de fome e sede, de desconforto, de dor e doenças, de medo e estresse e livre para expressar comportamentos naturais. O conflito aparece quando aquilo que fazemos por afeto começa a limitar uma dessas possibilidades. Um cachorro impedido de farejar para não se sujar ou não parar durante o passeio, por exemplo, pode estar impecavelmente limpo aos olhos do tutor e, ainda assim, privado de uma atividade fundamental para sua espécie.

Um cão precisa farejar, latir, cavar. Um gato precisa poder subir, arranhar, explorar. Um animal que vive em apartamento continua carregando comportamentos próprios de sua espécie. Adaptar-se à vida conosco não significa deixar de tê-los.

Luana usa o passeio como exemplo. Para o cachorro, caminhar não é apenas exercício físico. Parar, cheirar e investigar o ambiente também faz parte da maneira como conhece o mundo. Com os gatos, a lógica é diferente: criar possibilidades para subir, se esconder, procurar alimento e brincar ajuda a permitir a expressão de comportamentos naturais, mesmo dentro de casa.

“Existe um papel importante de quem vai adotar um animal em entender o próprio estilo de vida e se ele é compatível com aquele pet. Não é uma plantinha que você rega. Podemos condicionar alguns comportamentos pelo convívio, mas não suprimir o instinto”, explica.

Essa fronteira aparece diariamente na clínica que Luana divide com a médica veterinária Simone Ferrari Frandoloso, especialista em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais. Alguns pacientes são acompanhados por ela durante uma década ou mais. Nesse tempo, Simone não conhece apenas o histórico clínico do animal, mas acompanha também a família que existe ao redor dele.

“A gente passa por todo o processo junto. Tem pet que acompanho desde filhote e hoje tem 10 anos; outros que comecei a atender aos cinco e hoje tem 15. Passamos pelos momentos felizes, pelas preocupações, pelas dúvidas. Isso acaba criando um vínculo também entre o veterinário, o animal e a família”, conta Simone.

Essa proximidade permite observar também mudanças na maneira como os animais são tratados. Para a veterinária, reconhecê-los como integrantes da família não é o problema. “Está tudo bem a gente dizer que eles são filhos, ter esse carinho e esse lugar afetivo. O que não podemos esquecer é que eles precisam viver como animais. Precisam passear, farejar, pisar na terra, correr, cavar, latir. Quando decidimos ter um animal, precisamos entender que ele tem necessidades também, não apenas as nossas”.

A humanização se torna prejudicial quando nossas preferências começam a se sobrepor ao bem-estar deles. Isso pode aparecer na alimentação, nas roupas escolhidas sem considerar conforto e temperatura ou na expectativa de que um cão permaneça eternamente no lugar de “bebê da casa”. “Será que o que é bom para mim é bom para o pet?”, provoca Simone.

É preciso permitir que eles cresçam e entender as diferentes necessidades em cada etapa da vida. Filhotes roem, exploram e destroem. Adultos precisam de rotina e estímulos. Animais idosos demandam outras adaptações e cuidados. Esperar que permaneçam indefinidamente no lugar simbólico do “bebê” pode fazer com que suas necessidades reais passem despercebidas.

Entre os problemas observados na clínica está a Síndrome da Ansiedade de Separação (SAS), caracterizada pela ansiedade relacionada ao afastamento da figura de vínculo. As duas veterinárias chamam atenção para a importância da rotina e de um ambiente com estímulos adequados também nos períodos em que o responsável não está presente. Por isso, parte do cuidado está em oferecer condições para que o animal fique bem e tenha estímulos adequados mesmo quando o tutor não está por perto.


Família também dá trabalho

Na casa de Alessandra Giacomazzi, esse trabalho começa cedo. Ela mora com o marido e nove cães. Por volta das 6h, começa a rotina de alimentação. A quantidade de ração é medida individualmente; há os complementos preparados para eles, medicamentos para quem precisa, limpeza e, toda segunda-feira, o deslocamento para a fisioterapia de um dos cães.

“São nove panelas, cada um no seu cantinho para não brigarem. Depois recolho e lavo tudo. Tenho uma que já está bem velhinha, é cega, então limpo xixi, limpo cocô, dou medicamento, levo para o banho. E dou amor”, enumera.


A casa cheia é resultado de uma vida inteira cercada por animais. Alguns foram comprados, outros adotados. Sky apareceu abandonada em frente à propriedade durante a pandemia, com dois filhotes e infestada por parasitas. Foi acolhida, tratada e ficou. Sol chegou como lar temporário e acabou ficando também. Cacau apareceu na rua; Alessandra já tinha encontrado alguém para adotá-la quando o marido — que jurou não querer mais nenhum — se apaixonou pela cachorrinha, que nunca mais saiu dali.

As histórias se acumulam junto com os nomes, mas Alessandra não fala apenas da parte bonita. “Eles dão trabalho, a gente abre mão de muita coisa. Mas eu não me vejo sem cachorro. Nem com 60, nem com 70, nem com 80 anos. Quem resolve ter um animal precisa entender que está assumindo uma vida que pode durar 10, 15, 20 anos. É do início ao fim. O filhote é sempre bonitinho, mas ele vai crescer”, diz a dona de casa.

Família dá trabalho. Cuidado envolve rotina, dinheiro, adaptação, renúncia e responsabilidade. Na casa de Alessandra, é ficar quando o marido viaja porque alguém precisa cuidar dos nove. No apartamento de Léia, é organizar compromissos em torno de medicamentos e do passeio diário de três cães idosos. “Eles são animais, nós sabemos disso. Mas para nós, eles têm outro significado. Para nós, eles são parte da família”, afirma Léia.


Quando a família muda

Luana conhece profissionalmente os efeitos da humanização, mas também viveu recentemente uma mudança importante dentro da própria família com a chegada da filha, Cecília, a uma casa onde os cães já ocupavam espaço, rotina e afeto.

Ela sabia que haveria adaptação. Quando voltou para casa com a bebê, fez questão de permitir o contato com os animais. “Eles foram os primeiros indivíduos a vê-la”, recorda. A recepção esteve longe de uma cena ensaiada para comercial de margarina. Alguns se aproximaram imediatamente. Outros chegaram perto de Luana e viraram de costas para a recém-chegada. Um simplesmente não deu muita importância.

Com o tempo, cada relação foi encontrando sua própria forma. “Eu sempre quis criar minha filha com animais. Era um sonho ter um filho com eles ali. Claro que hoje a atenção é dividida e a rotina mudou, mas fazemos o possível para manter também o espaço deles. Eles já faziam parte da nossa vida antes da chegada dela e continuam sendo uma prioridade para nós”, relata.

Na clínica, Luana também observa situações em que essa história segue outro caminho. O cão que ocupava o centro da rotina perde espaço com a chegada de uma criança e, em alguns casos, acaba sendo doado. Famílias se transformam. Nascem filhos, pessoas se mudam, casais se separam, animais envelhecem. E o compromisso assumido com eles precisa atravessar essas mudanças, não existir apenas quando for conveniente.


Quando eles vão embora

Se os animais participam da nossa rotina, também deixam um espaço quando partem. Léia e Alessandra sabem que o tempo não necessariamente apaga essas ausências. Flor morreu há muitos anos e continua presente nas lembranças da família de Léia. Alessandra ainda se emociona ao falar de animais que perdeu ao longo da vida. Outros chegaram depois, mas nenhum ocupou exatamente o mesmo lugar. “Quem perdeu entende o quanto dói. É um luto. É parte da tua família”, resume Alessandra.

O luto por um animal, quando diminuído por quem observa a relação de fora, ignora os anos de convivência, cuidado e construção de vínculo. O humano cuidou daquele animal e também recebeu dele companhia, afeto e presença. Quando ele deixa de estar ali, não desaparece apenas um pet. Fica a ausência de uma parte concreta do cotidiano.

A pergunta que dá título a esta reportagem não comporta uma resposta única. Nós alimentamos, protegemos, levamos ao veterinário, adaptamos a casa, reorganizamos viagens e aprendemos a reconhecer sinais que eles não conseguem explicar em palavras. Eles, por sua vez, oferecem companhia, presença e uma relação que atravessa fases inteiras da nossa vida.

Nós os trouxemos para perto e podemos amá-los reconhecendo quem eles são quando estão conosco. E, no fim, é isso que faz alguém pertencer à nossa vida.





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