papo cabeça
05/10/2026

Gestão e Concreto

Raquel de Oliveira Reis, especialista em Tecnologia de Concreto e diretora da Concreoeste — Usina de Concretos, compartilha sua visão de mercado, sociedade e os rumos que a construção civil tem tomado.

AUTORA

Carol Bonamigo

Chapecó vive um momento de expansão no mercado imobiliário. Dados divulgados pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Oeste de Santa Catarina (Sinduscon Oeste) mostram que, nos últimos 4 anos, 513 novos empreendimentos e cerca de 2,4 milhões de metros quadrados de projetos foram registrados no município. Apenas no primeiro semestre deste ano foram mais de 50 novos empreendimentos de grande porte aprovados na cidade e um aumento de 3,5% no CUB. Convidamos a engenheira civil Raquel de Oliveira Reis, especialista em tecnologia de concreto e diretora da Concreoeste — Usina de Concretos, com mais de 20 anos de trajetória na engenharia civil, para compartilhar um pouco da sua visão de mercado, sociedade e os rumos que a construção civil tem tomado.


Flash Vip: Você ajudou a construir Chapecó, mesmo que indiretamente. E pode-se dizer que você viu toda essa mudança na cidade de um espaço privilegiado — afinal, são 20 anos de concreteira. O que, para você, mais impacta na paisagem urbana atual?

Raquel de Oliveira Reis: Realmente, eu enxergo isso de um lugar privilegiado. Pois estando junto da concreteira, junto da construção civil, a gente conseguiu mudar desde ambientes urbanos até facilidades sociais e civis. Vejo com muito propósito isso, não apenas o trabalho que eu faço, mas as mudanças que ele inclui. Criar possibilidades de vias para as pessoas, construção de escolas, ampliações de hospitais, igrejas, inúmeras casas, prédios, residências. É um orgulho tremendo passar pela cidade e ver que tem um “filhotinho” meu ali, que o meu concreto está naquela obra.

A gente participou da reforma da Arena Condá, da construção do Autódromo Internacional, da reforma do Verdão e tantas outras. A Raquel de 20 anos atrás não fazia ideia do quanto a cidade evoluiria, do quanto as construções estariam evoluindo e o quanto as construtoras estariam indo atrás de desenvolvimento e tecnologia. É algo que vai além do trabalho. Criamos relacionamentos, desenvolvemos. E o cenário urbano é uma mudança diária. Olhar para Chapecó de 20 anos atrás e comparar com agora, ela está muito diferente e eu amo ver essa transformação.

Sobre questões para a comunidade, nós vemos movimentos sociais incluídos na construção civil. Você cria história e cria vínculo nesses espaços. Eu penso o quanto as pessoas vão usufruir, vão viver e criar memórias em prol disso. Todo esse ambiente urbano se desenvolvendo traz crescimento não apenas para a construção civil, mas na construção do indivíduo e de uma sociedade.


FV: Enquanto concreteira, o quanto te permite transitar entre diversas construções, trabalhando com diferentes construtoras e entender a particularidade de cada obra?

ROR: Sim, participo ativamente. Não é só levar o material. Uma usina de concreto vai muito além. Você participa, realmente. É na agilidade que você vai entregar o material, produtividade da equipe, a facilidade que você traz com o seu produto e o seu serviço. É um estudo diário que a gente faz que, muitas vezes, não chega ao cliente final. Mas eu, como responsável técnica e engenheira à frente, me preocupo, por exemplo, com a durabilidade do meu concreto. Por mais que a norma fale 50 anos, temos edifícios há quantos anos de pé? Eu quero que cada parte que saia da concreteira seja um legado, que de fato seja algo que represente não apenas a minha vida, mas as vidas que virão. Que a gente consiga não trazer intervenções negativas, mas sim soluções para as obras e para a cidade.

É um ramo que você não fica estagnado, precisa estudar o tempo inteiro. Você lida com várias empresas, então sabe da dificuldade, da facilidade e da necessidade que cada uma tem. E vai aprendendo e desenvolvendo junto.


FV: E o que você aprendeu sobre negócios que a faculdade de Engenharia não ensinou?

ROR: Não é só o concreto, é tudo que chega antes dele. A qualidade da minha água, a qualidade do meu britado, do meu cimento, dos aditivos, das pessoas, da equipe técnica, do equipamento. Desde a origem dos agregados até a pós-entrega. Traço é muito complexo e é uma química envolvida fantástica. Isso me fascina.

E precisa estudar. O conhecimento que você tem de 20 anos atrás não serve mais para hoje. Você piscou e saiu uma novidade. Precisamos estar aptos à mudança. Ter a solução antes mesmo que o cliente peça. Mas a necessidade do mercado nem sempre acompanha o desenvolvimento. É preciso andar junto. Você tem que estar preparado para as mudanças e entender as necessidades do teu público. Cada obra é única, cada construção é única, e nem sempre o que serve para uma vai servir para outra. E cada obra merece um concreto único. É relacionamento e compromisso.


FV: Qual foi a maior transformação que você viu nesse mercado desde que começou? E o que mudou mais nesses anos: a tecnologia ou as pessoas?

ROR: Os dois. A tecnologia nem se fala. Em um piscar de olhos, temos muita coisa acontecendo, principalmente com a IA. E as pessoas também. Para quem trabalha com gerações diversas — baby boomers, geração X, Y e Z —, as pessoas mudam, as gerações mudam, e lidar com isso é mais complexo que lidar com a própria tecnologia. Isso não quer dizer que é melhor ou pior, mas a complexidade é grande. Mas também é algo muito lindo, porque hoje as pessoas têm mais liberdade de fazer escolhas, de entender e buscar acesso. É uma transição de perfis profissionais que entram, tanto pelas gerações mudando quanto pela tecnologia agregada nesses processos. E é isso que acontece: a gente se adapta. É preciso se atualizar, inclusive em gerir pessoas e lidar com as situações.


FV: E, mais recentemente, você resolveu abrir uma nova janela para compartilhar parte do seu conhecimento, mostrando no Instagram (@raqueldeoliv) e no YouTube (@raquelalemdaengenharia) os bastidores da construção da sua própria casa e traduzindo decisões e processos da engenharia para quem também está vivendo a experiência de construir. O que muda nessa dinâmica?

ROR: No início, pensei em como a minha experiência profissional e pessoal poderia ajudar alguém que também está construindo. Mas acabou me esclarecendo também certas dúvidas, pois você abre uma rede de relacionamentos nova. Falar o que pensa, o que estudou, o que desenvolveu, as dificuldades de tocar uma obra, de que maneira foi feito. Então pensei nessa partilha. Construir a minha própria casa foi uma decisão muito difícil. A gente planeja, projeta, e nem tudo sai como a gente quer. Assim é uma obra, assim é a vida. Não existe obra perfeita e a verdade nua e crua precisa ser dita. Falhas acontecem e precisamos estar ali para resolvê-las e direcionar para que o melhor seja feito. E eu pensei que seria mais difícil ser cliente, mas estar à frente da obra te dá mais noção do porquê as coisas estão acontecendo.


Assista a conversa completa no podcast falaFV!, no Spotify.



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